24.6.12

de.claro



vedei as ameias aos sonhos
retirei-me do postigo de onde arregalava os olhos
à procura do teu nome nas folhas que caíam

e do tempo - tanto! - em que fiquei inerte
a receber a rebentação das ondas no peito

agora sou pedra
rocha dura sujeita apenas à erosão das noites
quando a lua está cheia

descalçarei os sapatos da vida para que nus
meus pés sintam as areias do tempo
a serem chão fugidio

e quando me cansar de ser sal irei banhar-me
no rio das pedras
ficarei a boiar em contemplação do céu
até que as nuvens
sejam cinza nos meus olhos

não buscarei nas margens qualquer indício
da tua existência
já sei que não existes

e é por isso que agora vou ser sempre só eu
entre a terra e o mar
um mel a adoçar os rios
até ao dia de ser fogo
e finalmente
apenas cinza nalgum olhar

Rosário Alves

5 comentários:

Maria João disse...

É preciso muito caminho, para se ser...

" entre a terra e o mar
um mel a adoçar os rios"

e sendo, só uma voz abraçada ao mundo consegue dizê-lo assim. Obrigada!

Um beijinho grande

Graça Pereira disse...

Um poema diferente...com sabor a sal e a mel!
Gostei
Beijo
Graça

Anónimo disse...


Palavras que apetece ilustrar.... pintar cada um dos teus poemas. Aguarda.
XI doce
dina

tb disse...

porque vivemos enquanto formos ainda que apenas cinza num olhar...
Gostei muito!
Beijinhos.

Virgínia do Carmo disse...

Talvez a cinza tenha a densidade de tudo o que nos é ausência. Dolorosa e inabraçável. Impossível. Talvez nunca nenhuma partícula nos possa completar. Talvez a tristeza acabe sempre por voltar.

Mas suponho que nos cabe permanecer. Dolorosamente inabraçados. Inacabados.

Recebe o meu abraço, insuficiente, talvez, mas inteiro.