5.4.12

urge



                                              

aos poucos todas as dores se abrigam
no interior das pálpebras

urge despedaçar os contornos do tempo
alinhar os dedos com as horas que restam
e abraçar a luz
de olhos abertos

aos poucos todos os espelhos nos escorrem
pelas linhas do rosto

adivinhamo-nos além da candura
com que nos remendamos aos dias
sempre tão incompletos

estamos boçalmente cientes da nossa pacífica in.existência
enquanto olhamos a sombra do corpo inerte no solo
e respiramos apenas um ar que há tanto gastámos

urge erguer o rosto contra o vento que nos empurra
urge olhar o sol de frente até que a dor seja cinza

urge procurar novos caminhos para os dedos
para que as mãos
[sempre enormes as mãos]
se possam estender no horizonte
arrancar os pregos que as seguram em oração
e permitir às palavras que se cumpram
nos gestos definitivos da génese primordial

que o amor a compaixão
a força e a verdade
se libertem
e sejam mais do que expressões
inflamadas sob as pálpebras

que sejam impressões digitais firmes
a marcar cada segundo cada hora cada dia
cada batimento de ar na nossa alma

que as amarras do medo não nos privem
da liberdade de ser
de agir
de errar
de cumprir a realidade com os traços imperfeitos
da perfeição

Rosário Alves


fotografia:Joanna Nowakowska (Sistermoon)

7 comentários:

Mar Arável disse...

Urge libertar os sonhos

Bj

Virgínia do Carmo disse...

Um poema docemente redentor... enorme!

Que as amarras do medo não te impeçam os poemas. Em tempo algum.

Beijo grande, Rosarinho

Anónimo disse...

Que as palavras de doçura e força nunca se te esgotem,porque de tão belas que são, fazem-me crescer em cada momento que as leio.

Beijo daqui para aí

Mila Homem Ferreira

Maria João disse...

Acredito que um dia, os homens venham beber poesia como única fonte capaz de lhes matar a sede de claridade. Nesse dia, este teu poema poderá ser de todas as leituras, o melhor prefácio.

Lindo, Rosarinho.
Simplesmente...

Um beijinho com toda a minha admiração.

A.S. disse...

Urge!... Porque tudo que oprime nos esmaga, porque tudo é tão breve!


Bjss
AL

Evanir disse...

Mãe...
Você que me deu o bem mais precioso.
“A vida”
Me esperou com tanto carinho.
Me ensinou os primeiros passos.
Bendita, és eterna mulher que me deu a luz!
Mamãe eu te amo embora a minha já
não esteja mais nesse plano.
sem você meus dias ficau mais escuro.
Você é meu eterno o meu raio de luz.
Mãe, neste dia, bem quisera poder te dar um abraço.
Te envio mil beijos ao céu
para um lindo anjo entregar para você
com meu eterno amor.
Um feliz dia das mães beijos na sua alma.
Evanir.

Dete disse...

Sua poesia me lembra um quadro. Aos poucos as imagens vão aparecendo, formando um desenho lindo e harmonioso. Suas palavras são como música, flutuando no ar... Muito bonito.