11.11.11

pó de ser


há uma casa sem janelas na esquina dos medos
paredes de porcelana telhado de ferro porta de papel
chão de sal
uma casa pequena de uma só pessoa

e há medos sem janelas nas esquinas das casas
com hologramas de tecto paredes e chão
portas de sombra
casas passagens de tempo de gente de ser

absurdos mudos cegos e loucos
pioneiros faróis de uma crença inesperada
os olhos
perdidos
de asas nas pálpebras
a comerem horizontes sem casas

e
ao abrigo do nome das coisas comuns
a luz
aquela que nasce nas mãos das crianças
a ser o berço de toda a coragem

pó de ser
a abrir caminhos nos sulcos do ar
em linhas curvas ponteadas de cor
e de sonho

pó das asas
a fazer-se ocre sob o peso do espaço
pouco
que reside na efemeridade das horas

e já os olhos voam na luz
das mãos pequenas imensas dos filhos
os nossos

fazedores de ruas esquinas calçadas
e casas
vazias de medo

Rosário Alves








5 comentários:

AC disse...

Um pó de ser que só se forja após longa jornada...
Muito bem, Rosário!

Beijo :)

Mar Arável disse...

Um também nós seremos

de novo crianças

Virgínia do Carmo disse...

Excelente, Rosarinho. Faltam-me as palavras. O teu poema é soberbo. Continuas a ser capaz de uma luz inimitável que nos prende às palavras, como se quisesse reter-nos para nos salvar.
- Como nos salvam os nossos filhos. -

Beijinho imenso

Maria João disse...

É este um olhar fundo para dentro do lugar onde nascem todas as coisas que sentimos. É esta a delicada sensibilidade de reter nas mãos a essencia do pó que somos, todos nós.

Lindo, Rosário!
Obrigada!

Um beijinho

Anónimo disse...

http://www.youtube.com/watch?v=hOFrGbuUqnQ&feature=related

beijo.