6.10.11

como um junco à beira do vento


obtusa nas linhas em que me enquadro
desenquadrada das linhas com que me desenho
uma e outra vez

busca torpe de um traço perfeito
onde a exactidão é um emaranhado de sonhos desfeitos

alquimia alguma fará das nuvens leito
e de bugalhos podres não nascerão pérolas puras

na pira dos fins acabados de começar
um festim
alimento sinuoso que me revolta a pele
na penumbra
dos poros hesitantes

as heranças doces da primavera
sucumbem aos pés de um outono amordaçado
forçado a fingir-se de verão

sinais perenes de uma lucidez
excessiva
casta
desalinhada do tempo e do espaço
nos carris desfasados e in.dolentes

os seixos escreveram-me um destino na planta dos pés
e
como um junco à beira do vento
aguardo
a derradeira carruagem fluvial

aquela que se irá desprender
e despenhar
num mar a florir de promessas 

Rosário Alves


4 comentários:

Virgínia do Carmo disse...

A tua poesia tem luz, mesmo na inquietação.
E aposto que o destino que trazes escrito na planta dos pés te há-de levar assim longe. A esse mar a florir de promessas.

Tens a minha admiração.

Beijinho grande, Rosarinho

Anónimo disse...

http://www.youtube.com/watch?v=EFv7uVXJgp4&feature=related

beijo.

Mar Arável disse...

Não existem destinos
nem carruagens fluviais

existem ciclos de marés
onde tudo se conquista
sem promessas

Poema solto e belo

Maria João disse...

As pérolas puras nascem na planta dos pés. É o caminho que lhes serve de abrigo e nada é em vão nesse imenso tesouro.
Tal como a tua poesia, Rosário. Intensa e bela.

Um beijinho